#39 – Investindo em Energia: O Começo de Tudo

14/04/2021 9 Por TR

Fala pessoas que andam por essas bandas, tudo bem com vocês?

Como eu falei nesse post de Planos Futuros, pretendo começar a deixar explícito e detalhadinho aqui todo o racional de cada investimento que eu tenho. Com essa explicação “forçada” dos meus investimentos eu pretendo rever as minhas decisões, reestudá-las, procurar falhas, pontos contrários pra que me façam refletir mais um pouco (e deixar tudo bem mais organizado) e, por fim, fazer um registro pro TR do futuro das decisões tomada pelo TR do presente (ou passado).

Nessa sequência de post que irei fazer vou começar com os meus investimentos em energia, que é a tese com maior percentual da minha carteira (37,2% direta e indiretamente), vou falar sobre tudo, as motivações, os porquês, os prós, os contras e no final vou entrar mais especificadamente em cada uma, mais precisamente eólica, solar, urânio, carros elétricos e lítio. Então vamos começar que tem muita coisa pra falar.

O começo de uma tese

A tese da energia nada mais é do que dizer com argumentos sólidos que a demanda global por energia vai aumentar consideravelmente em alguns anos. A primeiro momento é simples ver esse crescimento, até porque tudo hoje em dia tem uma relação direta com energia, vamos a alguns pontos:

  • Quanto maior o número da população mundial, maior é a energia demandada. Cada ser humano requer um mínimo de energia na sua vida, seja pra acender um fogareiro a gás, seja usando um carro ou um ônibus queimando energia fósseis, seja elétrica pra carregar seu computador, celular ou simplesmente ligar a luz em casa. Independente de qual nacionalidade, classe social, credo, raça, TODOS precisam de alguma forma de energia e quanto mais pessoas existirem nesse mundo maior é essa demanda.
  • Também existe a relação direta com a riqueza das nações, quanto mais rico e quanto maior a qualidade de vida de um país, mais ele demanda energia. Pense numa família pobre e numa família rica, qual delas gasta mais energia? Pois é, quanto maior a qualidade de vida das pessoas, mais energia elas gastam. Só por ter essa relação temos uma cadeia de suprimento quase interminável, alimentos pra serem processados e produzidos em escala precisam de energia de qualidade, a industrialização, a automatização das fábricas, tecnologias, saúde (medicina), internet, TUDO, simplesmente tudo requer energia pra funcionar e prosperar bem, e quanto mais rico um país mais desse tudo ele demanda e, assim, mais energia ele precisa.

Como eu disse na introdução, visualizar que a energia demandada irá crescer é fácil, mas precisamos de dados, métricas, ver estudos e pesquisas atuais do setor e as previsões que temos pro futuro, daí sim podemos tirar conclusões.

De acordo com a Shell no seu relatório anual de 2019[1], 32% da energia produzida vem do petróleo/óleo, 27% do carvão e 22% do gás natural, o resto todo ocupa apenas 19%, que é uma mistura de bioenergia e energias renováveis somadas (sendo bioenergia 10%).

Fontes de energia atuais

Veja que apenas 19% da energia mundial é elétrica, isso porque o maior consumo final de energia elétrica somos nós, moradores. Da energia demanda pelos lares e pelo comércio, apenas 30% é elétrica, o resto é biomassa e gás. No transporte 96% é petróleo e na indústria apenas 22% é elétrica, sendo mais dominado pelo gás (27%), petróleo (22%) e carvão (20%).

Energia demanda por lares e comércio no mundo

Beleza, sabemos como é o cenário global da energia e que ela cresce com o aumento da população. Mas qual é o ritmo desse crescimento?

Atualmente estamos com 7,8 bilhões (2021) de pessoas vivendo na terra, e as previsões para 2050 são de 9,8 bilhões de terráqueos, então é fácil ver que os atuais 13,7 Mtoe produzidos atualmente não serão suficiente e teremos que ter um aumento considerável dessa demanda, tanto pelo aumento populacional quanto pelo avanço tecnológico e industrial.

Mas a resposta para esse aumento populacional é simples, se precisamos de mais é só aumentar uai, não é?

Sim, isso é verdade, conseguiríamos manter o ritmo de aumento dessas energias normalmente, temos ainda muito reserva de petróleo/óleo, carvão e gás natural, mas de acordo com governantes e cientistas, se fizermos isso não teremos um planeta tão “saudável” assim no futuro (como se ele tivesse “saudável” agora rsrs).

Isso porque grande parte da energia mundial produzida atualmente vem de fontes não renováveis e sujas, como o carvão e o petróleo. Isso é péssimo pois essa forma de energia emite muito CO2, principal componente responsável pelo aquecimento global. Veja nesse gráfico abaixo a estimativa de aumento da temperatura global se o cenário continuar o mesmo.

A grande inclinação dessa curva assusta muito porque isso trás consequências muito fortes. Não vou ficar aqui discutir o cunho científico se isso é verdade ou não ou se é tão alarmante assim ou não, pra quem quiser ver mais a fundo tem um excelente estudo da McKinsey[2] sobre todo esse tema (bem aprofundado mesmo), abordando as possíveis consequências como aumento do nível dos oceanos, cidades costeiras sendo lentamente inundadas, aumento de frequência de furacões e desastres, temperaturas locais chegando a 48º em alguns cantos do mundo e por aí vai. Mas continuando minha linha de pensando, esses dados são suficientes para que o mundo em si fique atento a esse aumento de temperatura e faz com que governos forcem mudanças fortes na matriz energética atual, por meios de incentivos, subsídios, investimentos e impostos (o famoso comercio de CO2).

Em 2009 a União Europeia já vinha pensando nisso e colocou uma meta de diminuir 20% da emissão de CO2 dela até 2020. Depois mandou esse percentual para 40% e agora no final de 2020[3] já manda esse número pra 60% até o horizonte de 2030, aumentando as taxas e impostos de empresas que poluem ou que usam combustíveis poluentes e incentivando o uso de energias limpas e renováveis. Dessa forma, eles tem na mira que 32% da matriz energética europeia em 2030 virão de energia limpa, com diferentes percentuais pra cada país, como 10% pra Malta e 49% pra Suécia (a Europa é o continente mais avançado nesse quesito).

Outro gigante poluidor dos ares é a China, com uma matriz energética de 60% carvão, ela é responsável sozinha por 11% da poluição de CO2. Seguindo a linha da Europa, a China vem combatendo forte a poluição de suas mega cidades e mirou fortemente uma mudança brusca na sua matriz energética. É o país que mais investe em energias eólicas e solar, sem falar que tem o plano mais ambicioso de todos os tempos na questão de energia nuclear, de 2008 a 2018 a China teve um crescimento de energia renovável numa taxa de 36% ao ano. Hoje ela é responsável por 26% de toda energia renovável do mundo e não quer parar por aí.

A maior economia do mundo (até então) também está seguindo esse caminho. Os EUA pretende ter metade da sua matriz energética sendo gerada por energia limpa até 2030. O país bate recorde de energia limpa gerada todo ano e cada vez mais deixa o carvão e o petróleo pra trás. O crescimento das fontes renováveis chegou, inclusive, ao Texas, onde está a maior parte da produção de petróleo dos Estados Unidos. O estado concentra um quarto dos projetos de geração eólica atualmente em curso e já é o maior gerador de energia dos ventos do país.

A Índia é outro país super populoso com foco no setor limpo e assim vai, não dá pra ficar citando cada país aqui mais tenha certeza que os principais do mundo estão de olho nisso, Japão, Alemanha, Espanha, Dinamarca, Suécia e contando.

Mas só de curiosidade, onde entra o Brasil nessa brincadeira?

O Brasil nesse quesito dá de 10 a 0 nos outros países pois já passamos por essa descarbonização faz é tempo. Hoje 65% da energia produzida no país vem de fontes hidrelétricas e a soma das solar e eólica chega a 9%, somos um dos países mais renováveis do mundo.

Certo, agora voltando a questão principal desse post, tudo isso que eu citei até aqui é pra argumentar que vamos demandar mais energia, isso não temos dúvida, mas entenda que existe uma grande pressão governamental, científica e também social para que essa energia que vai ser demandada seja limpa e renovável. As energias sujas vão continuar sendo o centro de tudo, não vai achando que o mundo vai se purificar e ser mil maravilhas em 2030 ou 2050, mas a participação das energias não renováveis será muito menor. Pra embasar mais um pouco esse ponto veja a troca que estamos tendo atualmente de carros de combustão por carros elétricos.

Graças as novas tecnológicas elétricas (bateria principalmente) o carro elétrico é uma realidade muito viva hoje em dia. Estimativas apontam que em 2030, mais de 30% do market share mundial serão dos carros elétricos, trinta porcento! Isso é um chute de home run pra eletrificação da energia, já que os carros a combustão tem energia direta do petróleo, mas que com a expansão dos carros elétricos isso muda e muito tanto no consumidor final quanto na cadeia de suprimento para “alimentar” esses carros. Quanto maior a dependência de energia elétrica, maior a conversão de energia via energias renováveis.

Na Noruega não serão mais vendidos carros a combustão depois de 2025. No país escandinavo 53% dos carros já são emissão zero de poluentes (elétricos), Amsterdã já tem o projeto de todos os ônibus de transporte público da cidade sejam elétricos até 2026 e por aí vai, essa troca “forçada” de tração a combustão por tração elétrica é irreversível, vai acontecer e, de novo, o maior vetor de crescimento é a China, com projeção de 50% dos carros domésticos serem elétricos em 2030, enquanto que na UE é 43% e nos EUA 25%[4].

Então, concluindo esse estudo inicial, temos um setor energético mundial em crescimento, com demanda garantida pro futuro (somente um apocalipse faz a gente consumir menos energia do que agora). Dentro desse setor temos vários tipos de energia, em que umas estão sendo proibidas e outras estão tendo um incentivo gigante de crescimento, assim, as energias renováveis estão com um espaço livre pra crescimento. Tudo isso já está claro, é um fato, e se você entendeu tudo até aqui então o objetivo desse post foi concluído.

Porém, a pergunta gancho que eu deixo agora é: qual energia é a energia do futuro?

Ora, sabemos que ela tem que ser limpa e renovável, mas qual é aquela com maior perspectiva, maior visão, menor custo, menor manutenção, maior produção, menor investimento, maiores chances de crescimento? Temos tantas formas de se produzir energias por aí, eólica, térmica, fotovoltaica, nuclear, biomassa, hidroelétrica, ondomotriz e etc, qual será a “do futuro”?

É essa pergunta que vamos tentar responder no próximo post.

Abraços a todos,

TR

[1] Relatório Shell
[2] Relatório MacKinsey
[3] Parlamento Europeu aprova meta ambiciosa de redução de emissões
[4] Carros elétricos serão um terço do mercado em 2030